Não é à toa que se costuma dizer que a informática pode democratizar o mundo. Na música também foi usado esse mesmo clichê. Mas até que ponto isso é democratizar?
A informática teve uma forte influência na música, através da chamada "era digital", onde os estúdios começaram a aderir a gravações e processos digitalizados. Mas até então, esses equipamentos eram muito caros e pouco acessíveis a usuários domésticos.
Sem dúvida, eles continuam caros, mas com a popularização dos computadores foram se desenvolvendo métodos de simular esses equipamentos a baixo custo. Assim, os usuários domésticos começaram a ter acesso a essas novas tecnologias e ao mesmo tempo houve o desenvolvimento do hardware e do software dos computadores.
Com a popularização da informática, esses usuários perceberam que se podia tranqüilamente chegar a um alto nível de tecnologia - comparada a estúdios profissionais - em suas próprias casas. Para isso, precisava-se investir em isolamentos acústicos e equipamentos sonoros.
A partir dessa situação, surge o termo "home studio" (estúdio doméstico) e começa-se um trabalho cada vez mais sério na qualidade dos mesmos, a tal ponto de muitas vezes não se conseguir identificar se uma determinada gravação foi feita em estúdio profissional ou amador.
Muito mais do que as delícias de captarmos nossa inspiração em casa, sem horários e outros limites, sobressai, nesta prática, a liberdade criativa de todos estes artistas. Sem a pressão do marketing de uma gravadora comercial, a cultura brasileira e de muitos países pode se livrar dessa padronização estilística que só é necessária para a sustentação dos grandes meios de comunicação, mas é estranha à evolução cultural do país e tem sido fatal para muitos gêneros musicais. (O QUE PODE UM HOME STUDIO, 2001).
Com o crescimento cada vez maior dessa vertente, a mesma se esbarra em um ponto altamente polêmico: o mercado fonográfico.
Atualmente, esse mercado passa por sérios problemas. Os dois principais são a falta de qualidade na produção artística e o empobrecimento das gravadoras.
Segundo Flávio Medeiros “...gravadoras já não saem às ruas atrás de artistas para lançá-los; já se foi o tempo. A maior parte delas está com sérios problemas financeiros devido à própria prostituição do mercado (os populares jabás e propinas), além da pirataria."
Mas, com todas essas adversidades, as gravadoras não buscarão uma reação que as tragam de volta ao antigo patamar? Se não obtiverem sucesso nessa reação, até quando podem durar? E os estúdios profissionais, como ficam no meio dessas revoluções? Será que sofrerão na mesma proporção que as gravadoras?
Começando a falar de música brasileira, nada melhor do que voltar as atenções para um movimento liderado por jovens estudantes internacionalistas, compositores, instrumentistas e cantores intelectualizados. Além de amantes do jazz americano e da música erudita, que conseguiram unir a alegria do ritmo brasileiro às sofisticadas harmonias do jazz americano.
É difícil precisar em que ano a Bossa Nova surgiu, mas, pode-se afirmar que após o lançamento do primeiro LP de João Gilberto, em 1959, chamado Chega de Saudade, o gênero se transformou em mania nacional e logo conquistou o mundo.
A princípio, a Bossa Nova era tida como movimento elitista, pois via com certo desdém todas as demais manifestações musicais brasileiras. Mas esse rótulo logo veio a baixo, principalmente com João Gilberto - a partir do trabalho dos pioneiros da bossa nova: Garoto e Johnny Alf e da influência de Chet Baker -trazendo abertura do gênero à grande produção das outras escolas. Contando com as canções de Dorival Caymmi e Ary Barroso, além de outros grandes compositores do passado, sendo interpretados sob uma nova forma.
De acordo com Luís Nassif, a Bossa Nova deve ser analizada sob três ângulos: forma de tocar, maketing e gênero musical.
Como forma de tocar, foi um sucesso amplo que se deve basicamente a João Gilberto, desenvolvendo uma técnica de tocar na qual acabaram cabendo quase todos os gêneros musicais do país.
Como Marketing, o sucesso foi ainda maior, principalmente depois que Tom Jobim e Carlos Lyra desembarcaram nos Estados Unidos com ternos modernos, violão a tiracolo e bonitos como galãs de Hollywood.
Já como gênero musical, por insuficiência de produção e de talentos - tirando o trio maior (Tom Jobim, Carlos Lyra e Roberto Menescal), durou poucos anos. Em meados dos anos 60 o movimento já havia se esgotado.
A Bossa Nova foi e sempre será um marco na história da música brasileira, mas, deve-se perceber que sua maior contribuição não foi pela quantidade de composições, pois mesmo Tom Jobim não tinha toda sua produção tipicamente bossa novística, tendo muitos elementos de samba-choro em suas composições. Mas foi sim, um movimento que renovou as harmonias e arranjos, dando à música popular brasileira um cunho nacionalista, além de influenciar quase todos os grandes compositores da música popular brasileira contemporânea.